“Ninguém pode parar a força motriz e matriz de um movimento organizado, revolucionário, e que segue vivo e de pé no país que insiste em nos matar”

Por: Lulna Mendonça, articuladora política MND 

Essa frase de Erika Hilton dita em seu discurso na Marsha Trans Brasil, que aconteceu em Brasília entre os dias 25 e 28 de janeiro, reverberou em mim de uma maneira que não consegui conter as lágrimas. Estar presente durante os quatro dias de atividades foi um marco não só na minha vida, mas na história de luta da nossa comunidade. A Marsha Trans Brasil foi mais que um evento, foi um grito de resistência. 

Desde 2004, o Dia Nacional da Visibilidade Trans é celebrado em 29 de janeiro. Mas este ano, os dias que antecederam a data foram recheados de eventos que trouxeram à tona a urgência das nossas pautas. Com o lema “Vida, direitos e futuro para a população trans”, a Marsha foi organizada pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transsexuais) e pelo IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculinidades), reunindo milhares de pessoas de diversas partes do país.

O primeiro dia de atividades da Marsha foi onde pude ter meu primeiro contato com muitos grupos e sentir a energia do que estava por vir. Tivemos um bailinho trans, aula de vogue e um sarau repleto de poesia e música. Ali, estava diante de uma comunidade plural, reivindicando o direito de ser, estar e existir em plenitude.

No segundo dia de evento tivemos o lançamento da pesquisa  Cadê o aqué – Mapeando ausências, (des)encaixes e possibilidades entre as organizações de travestis e mulheres transexuais e a filantropia no Brasil, desenvolvida por Maria Clara Araújo, por meio do Programa Saberes da Rede Comuá. Na pesquisa, alguns dados importantes foram destacados, oferecendo um olhar mais amplo sobre o cenário de apoio às instituições trans no Brasil. O levantamento mapeou 32 organizações lideradas ou representadas por travestis e mulheres transexuais, espalhadas por 17 estados. Dentre essas organizações, 100% relataram não possuir recursos suficientes para garantir sua sustentabilidade e a execução das ações previstas para o ano. O dado é alarmante, mostrando um quadro de subfinanciamento que ameaça a continuidade do trabalho dessas instituições em seus territórios.

Outro ponto relevante da pesquisa, apontou que 70% das organizações contam com um orçamento anual inferior a R$ 50 mil, o que limita drasticamente sua atuação. Além disso, apenas 6% delas conseguem remunerar suas equipes, evidenciando a dificuldade em garantir estabilidade operacional.

Geograficamente, a maioria das organizações está concentrada no Sudeste (41%), seguido pelo Nordeste (28%), Centro-Oeste (13%), Norte (9%) e Sul (9%), demonstrando também as disparidades regionais no acesso a recursos.

Esses dados são fundamentais para entender o cenário atual de apoio às instituições trans no país, além de abrir discussões sobre como avançar nesse campo e quais mudanças são necessárias para garantir um futuro de mais estabilidade e justiça para essas organizações.

A Marsha, no dia 26, foi o ponto alto. Às 13h, nos reunimos em frente ao Congresso Nacional, para ocupar as ruas em um país que, vergonhosamente, lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans há 16 anos consecutivos. Nas trocas com as mulheres trans e travestis negras, a grande maioria destacou que estava nas ruas pelo fim do transfeminicídio, por cotas nas universidades, empregabilidade, justiça, reparação e bem viver.

Ao final, houve apresentações artísticas que deram cor e vida ao movimento, reforçando que resistimos não só por necessidade, mas também por amor à vida e à arte, apesar de todas as estatísticas que insistem em tentar apagar nossas vidas, seguimos de pé.

Os dias seguintes continuaram com debates e seminários. No terceiro dia de evento participei do “Seminário de Representação e Representatividade Transpolítica” na Câmara dos Deputados. Foi um espaço importante de troca e resistência, onde pude presenciar a pluralidade das travestis que estão fazendo política no Brasil. 

No entanto, esse encontro também escancarou uma questão crucial: a maioria das representantes políticas trans e travestis que vi na bancada eram mulheres brancas. Diante dos dados alarmantes sobre a vulnerabilidade das pessoas trans negras, é essencial ressaltar a importância de pensarmos em políticas de reparação.

Precisamos garantir mais representação de pessoas trans pretas na política nacional para que essa pluralidade se reflita verdadeiramente em todos os espaços de poder.

Neste mesmo dia presenciei um dos momentos mais impactantes foi o lançamento do Dossiê da ANTRA:  assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2024, dados que ajudam a traçar um panorama das violências e desafios enfrentados pela população trans no Brasil.

O dossiê destaca que, apesar de uma redução de 16% nos assassinatos de pessoas trans em 2024, o Brasil ainda é o país que mais mata essa população pelo 16º ano consecutivo. O perfil das vítimas continua sendo majoritariamente de jovens negras, empobrecidas, do Nordeste, e os crimes são cometidos em espaços públicos com crueldade exacerbada .

Além disso, o aumento da violência contra pessoas trans está sendo impulsionado pela ascensão da extrema direita e forças políticas conservadoras, que buscam restringir direitos através de legislações discriminatórias, como a exclusão de atletas trans dos esportes e o uso de banheiros segundo a identidade de gênero .

No quarto e último dia de atividades, tive a chance de participar pela primeira vez de um evento na ONU, uma experiência única. Neste lugar onde sempre sonhei estar, assisti ao lançamento da pesquisa Índice de Monitoramento dos Direitos LGBTQIA+ , realizada pelo Instituto Matizes.

A pesquisa aponta que o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer na ampliação da participação social de pessoas LGBTQIA+ em espaços de decisão. Com o apoio de entidades como o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Equal Rights Coalition e o Consulado Geral da Alemanha, a ferramenta analisou 43 indicadores em 13 dimensões, oferecendo um diagnóstico detalhado sobre a situação em nível nacional, estadual e distrital.

Os dados revelam a necessidade urgente de proteger essa população contra agressões que frequentemente resultam em homicídios e de implementar ações dentro do ambiente escolar. Isso reflete a realidade vivida no Brasil, onde estados como Pernambuco e Ceará estão entre os que mais registram casos de lesões corporais dolosas contra pessoas LGBTQIA+.

Apesar dos avanços, o relatório mostra que 89% dos estados brasileiros ainda não incluem a comunidade LGBTQIA+ em suas políticas de saúde em seus Planos Plurianuais. Isso evidencia a falta de compromisso em garantir o bem-estar de nossa população em várias esferas governamentais. Mesmo assim, iniciativas como o Programa Brasil Sem Homofobia, lançado em 2004, são apontadas como marcos para a construção de políticas públicas específicas, ainda que a falta de ações nos últimos anos tenha criado um vácuo em espaços de participação social.

Voltei para casa me sentindo com mais força para lutar e renovada. A Marsha Trans Brasil  foi um lembrete de que, mesmo diante da violência e da opressão, seguimos caminhando juntas, honrando a memória de Marsha P. Johnson e todas as outras que vieram antes de nós. Nossa força é motriz e matriz, e ninguém pode parar um movimento que segue vivo e de pé.

“Ninguém pode parar a força motriz e matriz de um movimento organizado, revolucionário, e que segue vivo e de pé no país que insiste em nos matar”