O diretor Walter Salles e a atriz Fernanda Torres nos bastidores de ‘Ainda Estou Aqui’ Foto: Sony Pictures/Divulgação

Ditadura e racismo: ainda estamos aqui

 Por: Gabrielle Abreu, historiadora e conselheira política MND

O ano de 2025 já está marcado na história do cinema brasileiro: pela primeira vez, em 24 anos, uma produção nacional chega ao Oscar, a principal premiação da sétima arte a nível global. É evidente que a qualidade de um filme não deve ser medida apenas pela quantidade de troféus que ele angaria, mas fato é que as indicações de “Ainda Estou Aqui” (Sony Pictures, 2024) fortalecem toda uma cadeia produtiva e criativa que deveria ser muito mais valorizada, tanto através do poder público, como por parte de espectadores e investidores.

O filme narra a história de bravura de Eunice Paiva, que, na década de 1970, sofre com o sumiço repentino do marido, o engenheiro e militante Rubens Paiva, após ele ser levado à delegacia para prestar depoimento. Após o episódio, a família, que mantinha uma vida alegre e livre de grandes problemas, precisa viver à sombra do autoritarismo, da torura e da busca incessante por justiça. Além da ausência física de Rubens Paiva, cujo corpo até hoje não foi localizado.

Nesse contexto, chama a atenção o comportamento de Eunice frente à falta do marido e às investidas silenciosas, mas violentas, dos algozes – agentes públicos, em sua maioria, que cometeram uma série de violações de direitos humanos contra a família Paiva e muitas outras no intervalo de 21 anos de ditadura militar. Para proteger sua família, Eunice enfrenta o regime que matou seu marido com certa sobriedade, que é brilhantemente traduzida na interpretação de Fernanda Torres. A própria participação de Torres na obra é um show à parte. Somada à trajetória popular e irreverente da atriz, sua atuação tem rendido, além de um número inédito de indicações em premiações internacionais, muitos memes, comoção e expectativas em relação ao dia 02 de março, data do Oscar.

Há, portanto, uma certa novidade no momento atual: de maneira generalizada, estamos tratando sobre o tema da ditadura militar no Brasil. Este, que é um assunto tabu e de difícil popularização no debate público, ganhou novos contornos a partir da “Ainda Estou Aqui”, e isso deve ser intensamente celebrado. Pela primeira vez em muitos anos estamos sendo impelidos a lidar com a temática; desta vez, por meio da arte e da cultura.

A ditadura militar é um dos grandes temas da história da República brasileira. É quase impossível, ainda que alguns tentem, explicar o Brasil de 2025 sem considerar esse período. Os elementos do regime e, em especial, do fim dele, deixam pistas importantes a respeito da violência institucional que historicamente nos assola, bem como sobre os sucessivos ataques à democracia e da cultura de impunidade tão característica do país.

Apesar das inegáveis contribuições de “Ainda Estou Aqui” para uma reflexão crítica e coletiva sobre a ditadura militar, o filme tem sido objeto de críticas e apontamentos quanto à ausência de personagens negros no enredo. De fato, os protagonistas e até mesmo as figuras secundárias do filme são brancas – o que retrata de maneira verossímil as características daquela família abastada e situada em uma posição de grande privilégio social. Tal condição é levemente abordada no filme quando amigos da família sugerem a Eunice que nada poderia com Rubens, já que ele era um ex-deputado federal.

O retrato fílmico desta família branca e rica afetada sobremaneira pela ditadura demonstra para nós a capilaridade do regime, que alcançou nocivamente toda a sociedade brasileira. É óbvio que pessoas e grupos foram atingidos de maneiras diferentes, mas não houve um brasileiro sequer que tenha passado incólume – talvez apenas os perpetradores daquelas violências.

A população negra, em especial, foi afetada pela violência extrema, mas também pelas medidas econômicas, políticas e culturais do regime. É evidente que uma parcela da sociedade brasileira que historicamente convive com a violência não teria passado ilesa, ao contrário do que muitas das narrativas sobre a ditadura nos induziram a pensar. O movimento negro, em especial, passou por uma longa fase de sufocamento que o impediu de atuar plenamente em diversas cidades brasileiras. Lideranças negras foram monitoradas, censuradas e torturadas. Se atualmente vivemos em uma sociedade limitada quanto à discussão racial, grande parte disto se deve às restrições impostas pela ditadura militar.

Ora, em um dos contextos mais efervescentes para a luta antirracismo no Brasil e no mundo, as militantes negras brasileiras encontraram dificuldades práticas e teóricas na atuação de enfrentamento ao racismo. Menciono a dimensão teórica porque a defesa do mito da democracia racial, ou seja, a ideia de que não havia racismo no país, esteve na ponta da língua dos ditadores, sendo expressa também em campanhas públicas nacionalistas e outras políticas de Estado.

Diversas militantes negras tiveram participações ativas nas tentativas de derrubar a ditadura, inclusive a partir da luta armada. Nesse contexto, destacam-se nomes como Diva Moreira, Maria do Espírito Santo, Thereza Santos, Helenira Resende, Lúcia Maria de Souza, Dora Lúcia Bertúlio, Maria Diva de Faria, Arabela Pereira Madalena e Edna Roland. No campo da intelectualidade, figuras como Beatriz Nascimento e Lelia Gonzalez tiveram suas atividades vigiadas com suspeição pelo regime. Também no processo de redemocratização do Brasil as mulheres negras mantiveram papel ativo. Lideranças como Benedita da Silva e Sueli Carneiro compuseram novos espaços de participação social denunciando o racismo no país e construindo caminhos para garantir o bem viver das mulheres negras e, por conseguinte, de toda a sociedade brasileira.

Tal como em qualquer outro episódio da história do Brasil, a ditadura militar e a abertura política do país também contaram com a radical imaginação política das mulheres negras brasileiras para apontar e formular possibilidades de superação do autoritarismo. Poucas lideranças no Brasil, diga-se de passagem, possuem as mesmas habilidades que nós para tanto.

É claro que a desigualdade sócio-racial também alcança as representações midiáticas. Contudo, me parece que temos a capacidade de nos sensibilizar com quaisquer histórias e de aproveitarmos de maneira inteligente o debate público na direção das nossas necessidades, que, quando enfrentadas, garantem um futuro mais promissor para todo o Brasil.

Ditadura e racismo: ainda estamos aqui